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Vila Pouca de Aguiar // Profundezas telúricas

Das paisagens solta-se a beleza natural que sacia a vista incauta. Entre as montanhas, um vale minado de recantos para explorar. É em Tresminas, perto de Vila Pouca de Aguiar, que, por entre caminhos difíceis de trilhar, resistem entranhadas nos solos

Vila Pouca de Aguiar // Profundezas telúricas Por: Patrícia 

                              

Foto: Patrícia Posse
Das paisagens solta-se a beleza natural que sacia a vista incauta. Entre as montanhas, um vale minado de recantos para explorar. É em Tresminas, perto de Vila Pouca de Aguiar, que, por entre caminhos difíceis de trilhar, resistem entranhadas nos solos r

Quem percorre o Complexo Mineiro de Tresminas, nas proximidades de Vila Pouca de Aguiar, sentirá certamente um forte apelo para se aventurar pelos terrenos acidentados. E nesse atrevimento, descobrirá minas votadas ao quase esquecimento, sem a azáfama dos tempos idos. Numa tentativa de lapidar a natureza em estado bruto, os romanos escavaram minas para fazer exploração de ouro, cujo auge terá sido atingido durante os séculos I e II d.C. De noroeste a sudeste, a zona de exploração prolongava-se por uma extensão de cerca de dois quilómetros e fazia-se sobretudo pelo desmonte a céu aberto, tendo resultado os desfiladeiros que são as cortas de Covas e da Ribeirinha. Estas crateras de dimensão gigantesca escondem várias galerias, apetecíveis para os curiosos ávidos de espreitar as profundezas da Terra. Estuda-se ainda a possibilidade de haver povos anteriores aos romanos que já exploravam o ouro neste local. O Complexo Mineiro de Tresminas tem aproximadamente 120 quilómetros quadrados. “É uma zona enorme que tem vestígios por todo o lado e que teve a felicidade de estar numa zona de montanha, portanto não muito sujeita ao desenvolvimento e as coisas preservaram-se praticamente intactas”, explicou o arqueólogo Carlos Batata. As minas estavam sob a directa administração estatal, cabendo ao exército a direcção e supervisão dos trabalhos no local. O ouro extraído em Tresminas destinava-se exclusivamente ao fisco romano. Os olhares dos turistas vão desbravando, amiúde, a rota do ouro romano. Assim, visitam as minas e as escavações na ânsia de encontrar as marcas da presença romana. “Tresminas é uma das minas mais importantes do Império Romano já bem conhecida e, por isso, vem aqui muita gente. Não só o turista normal, mas também os investigadores, geólogos, arqueólogos”, referiu Carlos Batata. O público que visita as minas é muito variado e com diversos tipos de formação, sendo que há um elevado número de estrangeiros. De acordo com o arqueólogo, há muitos alemães e espanhóis, destes a maioria são investigadores. A câmara de Vila Pouca de Aguiar disponibiliza guias para orientar as visitas turísticas, mediante solicitação. Desde 1997 que o Complexo Mineiro de Tresminas está classificado como Imóvel de Interesse Público pelo Instituto Português do Património Arquitectónico (agora IGESPAR). A próxima ambição é candidatar as minas romanas a património mundial da UNESCO.

À descoberta do que já foi

A tentativa da terra encobrir restos do passado tem sido contrariada com as escavações arqueológicas. A decorrer até ao final do Verão, estendem-se por uma área total de cem quilómetros quadrados. Responsável pelos trabalhos no Complexo Mineiro, Carlos Batata defende que, para além das Cortas, este local será “um salão de visita de Tresminas”. “Estamos a encontrar uma zona residencial rica, porque o espólio assim o indica. Por exemplo, a loiça bastante fina não seria certamente dos mineiros que trabalhariam na mina, mas dos administradores. Este seria o local do pessoal mais especializado”, confidenciou. Várias moedas de cobre, candeias, artigos de cerâmica fina, mós, pilões e muros das casas foram algumas das descobertas. “Já encontrámos taças que corresponderiam à Vista Alegre dos romanos, porque é uma loiça de muito boa qualidade, alguns instrumentos ligados a actividades como a tecelagem e depois telhados e casas já com um certo cuidado”, referiu Carlos Batata. O espólio está guardado no Museu Municipal de Vila Pouca de Aguiar. “Já está exposto desde o ano passado. O restante é aquele que não é musealizável e está em reserva, para que no futuro se possam fazer exposições, algumas até itinerantes.” Mesmo no meio do povoado foi descoberta uma vala de transporte de águas para as lavarias das minas ao longo de mais 1.5 hectares. “Há ainda uma quantidade enorme de canais espalhados por vários sítios, dada a existência de duas barragens no Rio Tinhela e outra em Jales que faziam o abastecimento de água aqui para as minas.” O arqueólogo quer ainda tornar visível todo o processo de lavagem e recolha do ouro. Por descobrir continua um templo, uma vez que há inscrições dedicadas a divindades indígenas e romanas, e umas termas, já que “os romanos gostavam muito do seu banho”. “Há uma estrutura que nós não sabemos bem o que é, se será um hipódromo ou outra estrutura, e que virá a ser também um pólo de atracção e oferta turística”, avançou Carlos Batata. A confirmar-se que seja um hipódromo será o terceiro identificado em todo o país.

À procura do que ainda é

Partindo em busca das minas romanas, a aldeia da Ribeirinha é um lugar incontornável. Um dos seus sete habitantes, Alcino Teixeira, disponibiliza-se prontamente a mostrar o património escondido. Abaixo das Fragas das Covas, conservam-se ainda os restos de pelo menos 30 plataformas em alvenaria com aproximadamente dez metros de largura, que se encontravam dispostas em duas filas paralelas na linha de maior declive. Cada uma formava um posto de operação e a água para lavar o minério tinha que ser transportada por um aqueduto de cerca de 30 quilómetros. Junto à galeria do Pilar, aberta a cerca de cem metros abaixo da cumeada, Alcino Teixeira conta que “os velhotes diziam que estava escrito em letra romana: “até aqui à frente chegarás, daqui para a frente não passarás”, mas eu nunca lá estive não posso dizer”. O túnel, rectilíneo e de originalmente 300 metros, formava um acesso horizontal ao sector principal da Corta de Covas e era utilizado para o transporte a granel e drenagem das águas. No piso, subsistem as marcas de rodas a indiciar a utilização de carros pesados, provavelmente puxados por bois. Numa fase de exploração posterior, foi aberto um canal de escoamento com um metro de largura sobre todo o comprimento do túnel. A morar em Ribeirinha há 34 anos, Alcino Teixeira conhece bem os sulcos que esgravatam a Corta. “Aqui há uma caldeira mais ou menos a meio da mina, que é bastante comprida, e a água ferve para cima. Só trazendo uma pilha é que uma pessoa vê o fundo da caldeira”, disse em frente à galeria do Buraco Seco. O túnel terá sido concebido, inicialmente, para a drenagem e tal como há 1 900 anos, descarrega ainda hoje, da Corta da Ribeirinha, as águas de infiltração acumuladas. “Nós dizemos que esta água é ferrada por ser assim com este lodo, diz que é boa para beber, mas eu não posso dizer que não sei”, sublinhou. Se o ouro tinha uma circulação restrita, as minas hoje parecem seguir essa regra. Ainda assim, endereça-se o convite para se deixar emaranhar por essas paisagens intocáveis.

 
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